Você se veste de Forma bem provocante não?

2009-2010

Num mundo contemporâneo, que hoje é sobrecarregado de imagens, através da massificação da internet e meios digitais, além dos já presentes veículos mais “antigos” (como televisão, cinema e jornais), o exercício da escolha destas imagens não se dá de forma totalmente aleatória. O meu interesse particular da fotografia (assim como da história que existem nelas e por detrás das mesmas) e na escolha das imagens, acaba percutindo pelos seus fotógrafos e/ou pelos que são fotografados. A esta metodologia aplica-se o determinante de que as fotografias escolhidas para algum trabalho, os fotógrafos escolhidos são, de certa forma, parte íntima da historia da fotografia. No que se tange às imagens, o mesmo aplica-se aos que aparecem ali, ou seja, a importância e relevância das personalidades que são mostradas em comparação à historia humana.

Neste projeto, o fator delimitante que é pertinente a questão na qual se debruça para a escolha das imagens é geralmente de grandes proporções históricas e/ou midiáticas, devido aos políticos e personalidades históricas que nelas se apresentam. Como dito antes, o processo de escolha não tem uma metodologia definida que possa servir de parâmetro para pinçar alguns padrões relevantes às imagens, e que assim, possibilitem uma sequência mais linear. No entanto, as imagens escolhidas até o presente são as que refletem algum acontecimento ímpar, de certo modo, um pouco mais trágico (por vezes) e/ou que denotam numa interpretação da imagem tendo em vista a força dramática que ela carrega, ora por sua construção e composição, ora pelos personagens/personalidades que ali aparecem.

Pinoche e Joao Paulo II

Pinoche e Joao Paulo II

O meu interesse pela fotografia, preferencialmente a fotografia histórica/documental (e a sua história implícita propriamente dita, que vai além da imagem) existe há algum tempo bastante tempo. De maneira geral, pode-se dizer que a fotografia sempre esteve presente no meu cotidiano particular, por vezes de forma mais intensa, e em alguns momentos, ausente fisicamente, mas não conceitualmente. Apesar destas idas e vindas, nunca foi algo ao qual me afastei completamente.

A escolha destas imagens iniciou-se como uma forma de aprendizado da técnica de gravura em metal com o trabalho “Otto Von Bismarck” e posteriormente, na continuidade, foi realizado “Lenin”. As chapas foram trabalhas individualmente pelos anos de 2007 e 2008, sem a intenção neste período, de justapor o texto que hoje se apresenta. As fotografias escolhidas refletem, um momento particular na história do(s) “personagem(ns) icônico(s)” em questão. No caso de “Otto Von Bismarck”, trata-se do Chanceler da Alemanha no Séc. XIX. Resumidamente, a sua importância deve a ser o mais importante político alemão deste século, responsável pelo sucesso na unificação tardia do estado alemão (a Alemanha foi a última grande nação européia a formar um estado nacional) entre outras feitos realizados.

Nixon e Mao - III

Nixon e Mao – III

Otto Von Bismarck

Otto Von Bismarck

A história da fotografia é curiosamente mórbida. Otto Von Bismarck morreu em 30 de julho de 1898, e o acesso ao seu leito de morte foi exclusivo de amigos íntimos e familiares. Entretanto, dois fotógrafos foram responsável pela “invasão” ao recinto proibido: Max Priest e Willy Wilcke. Subornando um dos responsáveis pelo acesso ao quarto ao qual já padecia Bismarck, tiraram várias chapas fotográficas do corpo do chanceler sem algum retoque ou mascara mortuária, recurso normalmente utilizado aos defuntos na época, ainda mais se tratando de uma figura de tal importância histórica e política. A fotografia mostra Bismarck sem nenhum “tratamento” estético para parecer menos danoso os efeitos final da convalescência ao qual foi submetido. Os dois fotógrafos foram, posteriormente, perseguidos pela polícia, a pedido dos familiares, afim de evitara divulgação das imagens e, consequemente, da derrocada de uma imagem que Bismarck detinha de homem forte do estado germânico jazendo numa cama sem nenhum tratamento adequado para aparecer ao público. Contudo, além disso, os fotógrafos além de vender as fotografias, foram denunciados por um fotografo rival que descobriu a ação/invasão. A essa fotografia, mórbida pela sua natureza e folhetinesca pela sua historia, foi trabalhada na técnica de gravura em metal, e posteriormente, justaposta uma famosa frase pronunciada pelo mesmo chanceler: “Os cidadãos não dormiriam tranquilas se soubessem como são feitas as leis e as salsichas”. Esta justaposição da imagem com o texto cria um terceiro elemento irônico. O “humor negro” que integra este trabalho acaba criando uma zona de ‘estranhamento’ ao espectador, pois a associação do ato de dormir integra-se ao que esta sendo dito, mas, ao saber que o personagem ali, neste caso, faleceu, a própria frase acaba ganhando dimensões que não detinha antes. Em todo caso, não é necessário o conhecimento além da imagem para ter uma fruição sobre o trabalho.

Nixon e Mao - II

Nixon e Mao – II

No caso do trabalho intitulado “Lenin”, a apropriação se deu de fotografias de Vladimir Lenin no estágio final da sua vida. A fotografia faz parte de uma série de fotografias entre dezembro de 1922 e março de 1923, período que Lenin sofre uma série de derrames,resultado de uma vida voltada as revoluções bolcheviques da década anterior na Rússia e a agitada vida pública. Nas fotografias, Lênin aparece sempre em cadeiras de rodas, as vezes acompanhado do seu médico particular e da sua irmã. As vezes também aparece sozinho. As fotografias de Lênin neste estado, só foram divulgadas anos depois da sua morte. A frase escolhida, entretanto, acaba repercutindo a fundo com a imagem escolhida. A sentença “a paz: uma trégua para a guerra” ganha aqui um duplo sentido. Por exemplo, num primeiro pensamento, a paz seria uma trégua entre uma guerra e outra, o que pode refletir, sobre o pensamento de Lênin, que a guerra é uma condição natural do ser humano, tendo em vista até que ele que seguia fielmente a doutrina marxista, onde evocava a naturalidade ao qual o do levante do proletariado sobre a burguesia e as suas conseqüências e da inconformidade com o sistema burguês vigente. Essa trégua seria o período de restabelecimento entre um conflito e outro, ou seja, de restauração de um conflito anterior e de preparação para a próxima guerra, de modo que a “revolução armada” seria uma condição que sempre perduraria sempre na história da humanidade, sendo a paz um fator estranho entre a sociedade e culturas diferentes. Vale lembrar que as interpretações aqui são particulares e não necessariamente limitam-se a somente estas duas. Muitas outras possibilidades de leitura dessa sentença podem ser levantadas pelo leitor.

Lenin - I

Lenin – I

Através destes dois trabalhos, a produção deste material desta forma é com o intuito de fomentar uma reflexão (e um resgate até certo ponto) sobre estas imagens e dos seus líderes políticos (no caso destes dois trabalhos), abrindo possibilidade de um novo contexto sobre as mesmas. Contudo, não entra aqui nenhuma posição de ideologia partidária para a escolha destas imagens, assim como o texto ou sobre o trabalho sobre as mesmas.

A Partir disso, surgiram outros dois trabalhos para esta série. Desta vez, as fotografias escolhidas são com quarto personalidades públicas, sendo que cada imagem contem uma dupla. O primeiro trabalho é uma foto sobre o encontro de Richard Nixon (1913-1994), presidente dos Estados Unidos de 1969 à 1974, e Mao Tsé-Tung (1893-1976), líder comunista revolucionário da Republica popular da China, de 1949 à 1976. A esta imagem é justaposto duas frases, que resultam em três trabalhos.

Nixon e Mao - I

Nixon e Mao – I

Otto Von Bismarck

Otto Von Bismarck

O encontro dos dois lideres do regime capitalista e do regime social-comunista se deu em 1972, quando o presidente americano, como forma de aproximar os dois países, visitou o líder chinês na ocasião. O encontro teve uma característica histórica, pois Nixon foi o primeiro presidente a visitar a China Socialista/Comunista. O encontro dos lideres foi emblemático, pois foi o primeiro sinal de aproximação que os norte-americanos tiveram em muitos anos de guerra fria com um país do bloco comunista e que, posteriormente, foi firmado um acordo político de cooperação entre ambos.

O segundo trabalho desenvolvido mais recentemente coloca lado a lado o Papa João Paulo II (1920-2005), que foi o pontífice supremo da Igreja Católica, desde 1978 até o ano de sua morte, e o ditador chileno Augusto Pinochet (1915-2006), que governou o Chile com mão-de-ferro após o golpe militar naquele país em 1973 e ficou no poder até 1990.

O Papa João Paulo II visitou o Chile em 1987, no final do período da ditadura de extrema direita no país sulamericano. Na ocasião, o fato curioso do então ditador Pinochet é que ele “enganou” o Papa e a sua comitiva para aparecer ao lado do Pontífice na sacada do Palácio da Moeda, em frente a milhares de pessoas que li estavam naquele dia. No entanto a imagem trabalhada, não se trata deste momento, e si de quando o ditador fez um discurso ao lado do Papa.

banca final / Pinacoteca Baraão de Santo Ângelo - Instituto de Artes da UFRGS / Dez/2010

banca final / Pinacoteca Baraão de Santo Ângelo – Instituto de Artes da UFRGS / Dez/2010

A justaposição das imagens com estas frases segue a regra de que ambas sempre terão relação uma com a outra, ou seja, o texto tem origem na pessoa ali retratada/apropriada. Contudo, as mesmas frases não foram ditas (e registradas) na origem deste mesmo momento. Assim, esta pesquisa apresenta, neste primeiro momento, um modo de produzir um trabalho dentro dos padrões técnicos da gravura mais tradicional, mas, num segundo momento, onde é inserido num questionamento mais contemporâneo, criar uma situação para o espectador de estranhamento e de humor, onde as relações que se formam entre as imagens destas personalidades históricas como as (próprias) palavras/frases acabam refletindo entre si.

Esta reflexão, que causa um ponto de tensão, pois a imagem não condiz exatamente com o que se apresenta no texto (ou vice-vesa), pois  ocorrem (ou ocorreram) em momentos diferentes.  Assim, uma questão relevante sobre este trabalho seja de aproximar ao cotidiano estas mesmas personalidades políticas que entraram para a história. Frases ditas em momentos de descontração ou de reflexão,mas que são estranhas no sentido de criar uma relação. Estes estranhamento torna-se uma maneira de aproximação das mesmas personalidades com o homem comum. Ou seja, o fato de pessoas produzirem estas frases. Ao retratar/trabalhar, mesmo que não fotograficamente, estas grandes personalidades (aqui no caso quase todas políticas) em gravura em metal, e justapostos a estas mesmas imagens, frases ditas pelos autores

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